O Brasil bateu recorde de ocupação feminina formal em 2023 e 2024, de acordo com dados do Boletim Mulheres no Mercado de Trabalho, do governo federal. Hoje, as mulheres representam cerca de 44,7% da força de trabalho do País. O avanço, no entanto, convive com diferenças persistentes: elas recebem, em média, menos que os homens, com defasagem que chega a 21,2% em cargos de gestão, dedicam 21,3 horas semanais às tarefas domésticas e enfrentam taxas mais elevadas de informalidade. O crescimento da participação, portanto, não elimina os obstáculos históricos. Ele revela um mercado em transformação, mas ainda marcado por desigualdades estruturais.
No recorte da indústria em Goiás, os números revelam um cenário de estabilidade. Dados compilados pela Gerência de Desenvolvimento Industrial da Federação das Indústrias do Estado (Fieg) apontam que, apesar das oscilações no volume total de empregos entre 2014 e 2024, a participação feminina na indústria se manteve estável ao longo da última década.
“Temos o desafio de ampliar a presença feminina em alguns setores da indústria, mas é importante observar que, mesmo quando o porcentual geral de participação se mantém, as mulheres estão avançando em qualidade de ocupação”, avalia o presidente da Fieg, André Rocha. “Hoje vemos mais mulheres em cargos de liderança, em funções técnicas mais qualificadas, com maior responsabilidade e melhor remuneração. No Senai, isso também aparece com muita clareza: cada vez mais mulheres buscam cursos que historicamente eram ocupados por homens, como mecânica e operação de máquinas pesadas, além de se destacarem em áreas de tecnologia e robótica. Esse movimento mostra que as mulheres estão conquistando protagonismo na indústria, liderando equipes, participando de conselhos e também empreendendo, o que fortalece todo o setor produtivo.”

Atualmente, são mais de 108 mil mulheres trabalhando no setor industrial goiano. A maior parte delas (82%) está na indústria de transformação. Os segmentos com maior presença proporcional feminina são confecção de vestuário (69%) e o setor farmoquímico e farmacêutico (51%). Já a fabricação de alimentos, embora registre participação de 33%, concentra o maior número absoluto de trabalhadoras: 37,1 mil.
Em contrapartida, áreas como minerais não metálicos (11%), combustíveis (12,3%), produtos de metal (14,2%) e manutenção e acessórios de máquinas e equipamentos (14,3%) seguem predominantemente masculinos, um retrato que dialoga com a divisão histórica de funções no mercado de trabalho brasileiro.
Qualificação e ampliação de oportunidades
É justamente nesse ponto que a formação profissional começa a redesenhar o cenário. Dados de matrículas do Senai revelam crescimento da participação feminina em cursos relacionados a segmentos industriais, inclusive aqueles com menor presença de mulheres no mercado. Entre as áreas com maior participação feminina, estão têxtil e vestuário (90%), química (66%), logística (64%), gestão (64%) e alimentos e bebidas (64%).
O movimento chama atenção principalmente em logística e química, áreas tradicionalmente associadas a ambientes industriais mais técnicos e operacionais. O interesse crescente indica que as escolhas formativas podem ampliar o leque de atuação feminina para além das funções administrativas.
Ao mesmo tempo, o levantamento revela que os cursos como supervisor inovador (3.671 matrículas), assistente de operações logísticas (3.352) e assistente ambiental (2.914) estão entre os mais procurados no geral, sinalizando a busca por qualificação alinhada às demandas atuais da indústria. A presença feminina nesses cursos reforça uma tendência: elas não estão apenas ocupando vagas, mas investindo em capacitação para disputar cargos de maior responsabilidade.
Incentivo à participação feminina
Para o diretor de Educação e Tecnologia do Sesi e do Senai, Claudemir Bonatto, o avanço da presença feminina na indústria está diretamente ligado ao acesso à qualificação profissional. “O Sesi e o Senai, ao longo de sua trajetória, sempre valorizaram a participação feminina no processo de ensino-aprendizagem. No Senai, temos programas específicos para formação de mulheres, como cursos na área de vestuário, corte e costura, mecânica automotiva e assentador cerâmico”, observou.
No Sesi, acrescenta o diretor, esse movimento também se reflete no ambiente interno. “O próprio quadro de colaboradores tem predominância feminina, especialmente na educação básica. Ao longo de nossa história, acumulamos iniciativas que estimulam a participação da mulher tanto na qualificação profissional quanto no ambiente de trabalho das duas instituições.”
Segundo Bonatto, a atenção à igualdade de oportunidades integra a trajetória histórica do Sesi e do Senai, acompanhando as transformações do setor industrial e do mercado de trabalho.
Perfil e permanência no emprego
O perfil das trabalhadoras na indústria goiana também ajuda a compreender essa dinâmica. Segundo a Relação Anual de Informações Sociais (Rais), 64% têm até 39 anos, 78% concluíram o ensino médio e 17% possuem ensino superior. Além disso, 47% estão no emprego há mais de dois anos, o que demonstram permanência e experiência acumulada.
Se, por um lado, os números mostram que a divisão setorial ainda carrega marcas históricas, por outro revelam um cenário em transição. A presença expressiva de mulheres nos cursos técnicos e de qualificação sugere que, na próxima década, as fábricas e os parques industriais do Estado poderão apresentar um desenho diferente.
Os dados revelam um processo gradual de ampliação de oportunidades, com mais mulheres buscando formação para atuar em segmentos antes menos representativos para o público feminino.


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