Entre leis e realidade: os desafios da inclusão de pessoas com Síndrome de Down no mercado de trabalho

 

     Entre leis e realidade: os desafios da inclusão de pessoas com Síndrome de Down no mercado de trabalho

Inclusão depende mais da cultura das empresas e do preparo das lideranças do que da legislação, aponta especialista


Lorranny Sousa - CEO Acelere


No dia 21 de março, data que marca o Dia Mundial da Síndrome de Down, a discussão sobre oportunidades de trabalho mais inclusivas ainda é necessária. Apesar dos avanços na legislação e na conscientização, a presença de pessoas com esse perfil nas empresas brasileiras ainda é limitada e revela desafios que vão além da contratação.


De acordo com a especialista em gestão de pessoas Lorranny Souza, CEO da Acelere, o principal entrave está na falta de preparo das lideranças e na ausência de uma cultura organizacional verdadeiramente inclusiva. “Muitas empresas acreditam que estão sendo inclusivas apenas ao contratar. Mas a inclusão de verdade acontece no dia a dia, na forma como esse profissional é integrado, desenvolvido e reconhecido dentro da organização”, afirma.


Entre os principais desafios enfrentados por pessoas com Síndrome de Down no ambiente corporativo estão o capacitismo, a falta de acessibilidade, que vai além da estrutura física e inclui comunicação e processos, além da ausência de planos de desenvolvimento. Embora a Lei de Cotas (Lei nº 8.213/1991) tenha contribuído para ampliar o número de contratações de pessoas com deficiência, a especialista reitera que o desafio atual está na efetividade dessa inclusão no cotidiano das empresas.


Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que há cerca de 300 mil pessoas com Síndrome de Down no Brasil. Desse total, apenas 5,3% estão inseridos no mercado de trabalho, o que evidencia um cenário de baixa inclusão e reforça a existência de barreiras estruturais que vão desde o acesso às oportunidades até a permanência e o desenvolvimento profissional.


Segundo Lorranny, muitas empresas ainda tratam a inclusão de forma superficial, com foco no cumprimento de exigências legais, sem uma estratégia consistente de diversidade e pertencimento. “A inclusão não pode ser vista apenas como uma obrigação legal. Ela precisa estar conectada à cultura da empresa e à forma como as lideranças conduzem suas equipes. Sem esse preparo, a inclusão não se sustenta”, destaca.


Lorrany Souza ressalta ainda que iniciativas como programas de capacitação, parcerias com instituições especializadas e ações de sensibilização interna são fundamentais para transformar esse cenário. “Essas ações são essenciais para garantir que a inserção no mercado de trabalho seja, de fato, inclusiva e sustentável”.


O papel da liderança, segundo ela, é determinante nesse processo. “A inclusão não é uma pauta operacional, é uma pauta estratégica. Quando a liderança está preparada, ela cria um ambiente onde todas as pessoas conseguem se desenvolver e contribuir com seu potencial. Isso impacta diretamente a cultura e os resultados da empresa”, pontua.


Respaldada pela legislação


No Brasil, a inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho é respaldada por legislações como a Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015), que garante condições de acessibilidade e igualdade de oportunidades, além da Lei de Cotas. Ainda assim, a especialista avalia que o avanço depende menos da existência de leis e mais da forma como elas são aplicadas na prática.


Além das barreiras estruturais, fatores sociais também impactam a inclusão. Levantamento do Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF) aponta que, entre pessoas com Síndrome de Down em idade ativa, 27,3% nunca trabalharam. Entre os principais motivos estão a falta de autonomia (36,4%), insegurança das famílias (22,8%), ausência de qualificação (14,3%) e a percepção de falta de oportunidades no mercado.


Para Lorranny, superar esses desafios exige uma mudança de mentalidade. “A inclusão é um processo contínuo, que exige compromisso real das empresas. Mais do que abrir vagas, é preciso criar ambientes onde as pessoas se sintam pertencentes e tenham oportunidades de crescimento”, conclui.


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