Artigo escrito por Wigvan Pereira dos Santos*
A escrita da Filosofia é frequentemente pensada como a busca por uma linguagem pura, capaz de traduzir a realidade em conceitos abstratos e proposições lógicas. Todavia, ao deparar-se com a violência da história e os limites da razão formal, a Filosofia percebe a insuficiência de um esquematismo puramente teórico. É exatamente nesse ponto de impasse que a Literatura aparece como um laboratório epistemológico e uma experiência de pensamento radical.
A Filosofia não se constitui apenas como exposição sistemática de conceitos em tratados. O diálogo platônico, a autobiografia de Agostinho, as cartas de Epicuro e Sêneca, o aforismo de Nietzsche, entre outros exemplos, mostram que a forma de apresentação participa da própria produção do pensamento. A Literatura, portanto, não aparece apenas quando a Filosofia abandona provisoriamente o conceito: formas literárias constituem, desde a origem, alguns de seus modos de pensar.
A relação também pode operar no sentido inverso. Uma obra literária pode fornecer à Filosofia uma configuração singular da experiência. Um caso relevante é a interpretação da parábola Ele, de Kafka, pela filósofa Hannah Arendt. A filósofa não aborda o texto a fim de extrair dele uma doutrina filosófica; Arendt situa-se na própria perspectiva da personagem para pensar a relação do sujeito com o tempo e com o mundo. A Literatura torna-se, nesse caso, uma forma de acesso a um problema que a argumentação filosófica desenvolve sem substituir a especificidade da obra.
Walter Benjamin radicaliza essa relação. Ao ler Baudelaire, não utiliza o flâneur como um protótipo de uma teoria da modernidade. A figura torna-se um instrumento de leitura da própria experiência histórica: o indivíduo que percorre a cidade, observa a multidão e se relaciona com a mercadoria condensa tensões sociais que Benjamin procura tornar legíveis. O flâneur é simultaneamente personagem literário, tipo histórico e figura epistemológica. A própria flânerie aproxima-se, em sua análise, do trabalho intelectual: observar, deslocar-se, recolher fragmentos e construir o objeto a partir deles.
Algo semelhante ocorre em Adorno. Kafka, Hölderlin, Heine e Beckett não fornecem exemplos para conceitos formulados independentemente da Literatura. A crítica literária integra sua filosofia social porque a forma estética registra, por meio de suas próprias tensões, contradições históricas que o discurso conceitual procura interpretar. A leitura de Kafka, por exemplo, participa da própria elaboração de pressupostos da Teoria Crítica. Em Deleuze e Guattari, Kafka também não funciona como simples ilustração: procedimentos de escrita, língua e enunciação tornam-se elementos para pensar a dimensão política da Literatura.
Podemos dizer que a Literatura participa da Filosofia em pelo menos dois níveis – mas há muitos outros. Pode modificar a própria forma do discurso filosófico, introduzindo personagens, cenas, imagens, parábolas, fragmentos e outras formas de elaboração. Também pode produzir figuras capazes de condensar experiências históricas e tornar pensáveis relações que o conceito isolado não apreende da mesma maneira. O flâneur benjaminiano é um desses tipos reflexivos; a personagem kafkiana interpretada por Arendt, outro.
Uma aproximação da Filosofia com a Literatura, portanto, não se restringe a encontrar conceitos filosóficos escondidos na Literatura nem de instrumentalizar romances, poemas ou contos para confirmar teses previamente estabelecidas. Uma aproximação mais interessante é investigar o que uma obra faz ao pensamento quando sua forma, suas imagens, seus conflitos e seus silêncios passam a integrar a construção de um problema filosófico. A Literatura não substitui o argumento: oferece outro campo em que o argumento pode surgir.
*Wigvan Pereira dos Santos é filósofo (UFG), mestre em Estudos Comparados (USP), doutor em Ciências da Literatura e Modernidades Comparadas (Uminho), professor de Metodologia e Orientação Monográfica e autor do livro "O metafísico, o real e o sexo: ensaios sobre as literaturas de Goiás e Cabo Verde"
Com informações de LC - Agência de Comunicação
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